Leo R. Elias

Freud e a soberania clínica
Émile CHAMBON _ Swiss _ Geneva, Switzerland 1905 - Collonge-Bellerive, Switzerland 1993_ Sleeper on her back, 1966–1968

“A teoria está muito bem, mas isso não impede que os fatos existam”.

Esta frase de Charcot, um dos mestres de Freud, evidentemente o marcou. Comprovamos isso tanto em seu método quanto em sua postura investigativa aberta a reformulações teóricas.

Freud só pôde fazer suas descobertas porque não se fixou nas teorias dominantes de sua época. Embora alguns cientistas já associassem a histeria à sexualidade, essa ideia circulava sobretudo em tom de chacota, sem estatuto teórico.

Foi com Charcot que se abriu um caminho decisivo, ao evidenciar a importância da observação clínica e o poder das representações psíquicas sobre o corpo. Diante de sintomas sem causa anatomofisiológica 1, Freud se deixa conduzir pela escuta, convocado por uma de suas pacientes a se calar e ouvir. E constata a centralidade da sexualidade no ser humano.

A teoria segue sendo um dos pilares da formação de quem se interessa pela psicanálise e de quem ocupa a função de analista. Em nossa prática, por exemplo, ela nos auxilia na formulação de hipóteses diagnósticas contribuindo para uma melhor direção do tratamento e orientação das intervenções.

Mas esse tipo de aplicação da teoria é muito diferente daqueles que forçam o encaixe de classificações ou de causas psicológicas nos sintomas que aparecem na clínica, como acontece frequentemente com quem se apoia em manuais classificatórios ou está mais interessado em confirmar um conhecimento teórico previamente estabelecido (o que pode acontecer em qualquer campo, inclusive o psicanalítico).

Como Lacan afirma em uma conversa com estudantes em Yale (1975):

“O analista opera deixando-se guiar pelos termos verbais usados pela pessoa que fala. Se Freud recomenda algo, é, como ele diz explicitamente, para não se precaver contra nada; você pode um dia se deparar com um caso totalmente diferente de tudo o que você poderia ter previsto como classificável. Siga o que vem da pessoa que você está ouvindo.”

A teoria serve ao analista e à experiência de quem se analisa. E é dessa experiência que a teoria se revigora, avança, se modifica ou, ainda, ganha mais força ao constatar algo estrutural que atravessa décadas, culturas e pessoas diferentes.

Como diz Lacan: “É de meus analisandos que aprendo tudo, que aprendo o que é psicanálise”.

Mas dizer isto não significa que Lacan trabalhava de modo puramente intuitivo. Muito pelo contrário, ele estava em constante diálogo com os escritos de Freud e com os de outros autores dentro e fora da psicanálise que o ajudavam a fundamentar aquilo que observava em sua prática.

A questão não é se devemos utilizar a teoria ou não, mas como utilizá-la sem que o texto da teoria se sobreponha ao texto da pessoa que fala, dando à clínica a devida soberania.


Para se aprofundar no tema: Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – vol. 3: A prática analítica.

Fundamentos da clínica psicanalítica – Obras incompletas de Sigmund Freud. Ed. Autêntica.


  1. O fenômeno da histeria, vale insistir, punha em xeque, outrora, os pressupostos tanto da medicina quanto da religião. Queimadas como bruxas ou como possuídas nas fogueiras da inquisição medieval, as histéricas são à época de Freud reputadas como farsantes sedutoras pelos médicos que não encontravam em sua lógica anátomo-patológica um lugar para aquele tipo de sofrimento. No corpo histérico, aparece como paralisia, cegueira, tosses, espasmos, etc. o que tinha origem no psíquico, e, curiosamente, métodos que usavam de influência psíquica (hipnose, magnetismo, catarse, etc.), de uma maneira ou de outra, pareciam ter maior efeito sobre tais corpos do que os métodos da neurologia ou da psiquiatria. Conversão de um sofrimento psíquico em sintoma físico. (Iannini, Tavares). ↩︎

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