Leo R. Elias

Mestres da “liberdade”
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Nunca se falou tanto em autonomia e talvez nunca tenha sido tão fácil se tornar dependente de discursos que ensinam como ser livre.

Pessoas em busca de mais liberdade podem acabar se tornando presas de discursos que prometem ensiná-las a serem livres, seguras e autônomas, mas que reforçam a mesma dependência da qual afirmam oferecer saída.

Seus professores, que se apresentam como terapeutas, mentores e até mesmo “psicanalistas”, colocam-se como mestres da liberdade, ocupando o lugar de quem sabe como viver, como se relacionar e como se tornar a melhor versão de si.

Essa lógica aparece em muitos conteúdos que circulam na internet hoje. Por exemplo, quando uma pessoa começa a consumir conteúdos sobre “autonomia emocional” para deixar de depender do olhar dos outros, mas, pouco a pouco, passa a tentar se enquadrar aos ideais do mestre de como se posicionar, como falar, como se vestir, que tipo de relação aceitar, que traços de personalidade seriam mais “saudáveis” cultivar.

Ou seja, a pessoa acredita estar se libertando, mas apenas troca uma forma de submissão por outra, agora mais sofisticada, revestida de imagens bonitas e de palavras como potência, autonomia e autoconhecimento.

A facilidade com que seitas ganham multidões de adeptos ou mestres delirantes conseguem influenciar muitas pessoas com suas ideias, não é à toa. A alienação é própria de todo ser de linguagem, que recebe de um Outro parental um banho de linguagem, de significantes, de palavras que possibilitam a entrada no mundo simbólico. Não há como não se alienar nos significantes do Outro.

Mas isso não significa que não poderemos deixar de nos alienar a figuras que representem esse símbolo de poder e saber que um dia as figuras parentais também simbolizaram.

Uma pessoa pode, sim, deixar de estar sempre querendo fazer o que o outro espera, deseja, demanda dela para se interrogar sobre o próprio desejo. Mas essa não é uma tarefa fácil, já que, de saída, há uma tendência de tentar apagar a divisão subjetiva entre o consciente e o inconsciente que é de onde esse saber sobre os desejos pode advir.

– Quem foi que produziu esse sonho estranho, sem sentido?
– Sem dúvida, não fui eu. (Não foi você ou não foi seu eu consciente?)
– Haveria um outro eu em mim?

Essa constatação não se produz sem estranhamento. Mas é justamente quando algo dessa ordem começa a ser levado a sério que uma análise pode, de fato, começar e nos dar notícias de algo sobre nossos desejos inconscientes.

Uma pessoa pode frequentar o consultório de um psicanalista por anos, mas isso não significa necessariamente que tenha entrado em análise. É preciso se dar conta dessa ilusão de domínio total sobre nós mesmos, de sermos só nosso eu consciente que sabe o que pensa, que diz exatamente o que quer dizer. 

Somos atravessados por atos falhos, lapsos, sonhos e sintomas que nos perturbam. Sujeitos divididos que dizem querer uma coisa, mas desejam outra.

Há em nós algo que pulsa e insiste para além do eu consciente e que nos traz um saber que nem mesmo sabíamos que já estava ali.

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