Nunca se falou tanto em autonomia, e talvez nunca tenha sido tão fácil se tornar dependente de discursos que ensinam como ser livre.
Pessoas em busca de mais liberdade podem acabar se tornando presas de discursos que prometem ensiná-las a serem livres, seguras e autônomas, mas que reforçam a mesma dependência da qual afirmam oferecer saída.
Seus professores, que se apresentam como terapeutas, mentores e até mesmo “psicanalistas”, colocam-se como mestres da liberdade, ocupando o lugar de quem sabe como viver, como se relacionar e de como se tornar a melhor versão de si.
Essa lógica aparece em muitos conteúdos que circulam hoje. Por exemplo quando uma pessoa começa a consumir conteúdos sobre “autonomia emocional” para deixar de depender do olhar dos outros, mas pouco a pouco, passa a depender de novos ideais: como se posicionar, como falar, como se vestir, que tipo de relação aceitar, que traços de personalidade seria mais “saudável” cultivar.
Ou seja, a pessoa acredita estar se libertando, mas apenas troca uma forma de submissão por outra, agora mais sofisticada, revestida de imagens bonitas e de palavras como potência, autonomia e autoconhecimento.
Será que é mais confortável aderir a conhecimentos prontos sobre como viver do que se confrontar com nossas dúvidas e então construir nosso próprio saber?
Parte da adesão a esses discursos se sustenta justamente na recusa de reconhecer que há em nós algo que ultrapassa ao domínio do nosso eu consciente.
É muito mais confortável acreditar que temos domínio total sobre nós mesmos: que dizemos exatamente o que queremos dizer, que não somos atravessados por atos falhos, lapsos, sonhos ou sintomas que nos perturbam. Como se não fôssemos sujeitos divididos; como se não quiséssemos uma coisa e desejássemos outra, como se não estivéssemos em conflito diante das decisões importantes da vida.
– Quem foi que produziu esse sonho estranho, sem sentido?
– Sem dúvida, não fui eu. Não foi meu eu consciente.
– Haveria um outro eu em mim?
Essa constatação não se produz sem estranhamento. Mas é justamente quando algo dessa ordem começa a ser levado a sério que uma análise pode, de fato, começar e nos dar notícias de algo sobre o desejo inconsciente.
Uma pessoa pode frequentar o consultório de um psicanalista por anos, mas isso não significa necessariamente que tenha entrado em análise. E um dos indícios é a constatação de que não somos senhores de nós mesmos, e de que há em nós algo que pulsa, deseja e insiste para além do eu consciente.

